Papo Ligeiro-

Papo Ligeiro
por Rafael Ligeiro

Massa e o mal necessário

Grande Prêmio da Alemanha, 12ª etapa da temporada 2002 de Fórmula 1. A bordo de um razoável Sauber, Felipe Massa fazia às honras da equipe suíça em pista. Com um excelente rendimento, ocupava a 6ª colocação. De repente, eis que o radinho do carro do brasileiro toca. Era Peter Sauber, dono do time, que gentilmente pediu a Massa para que deixasse o seu companheiro de escuderia, o alemão Nick Heidfeld, passar. Assim Felipe o fez. Recebeu a quadriculada no 7º posto. Heidfeld, em 6º.

Quase oito anos depois a história se repetiu. O palco foi o mesmo daquela prova em 2002: o circuito de Hockenheim. Só que ao invés da Sauber, a equipe do brasileiro agora era a poderosa Ferrari. E sua posição não mais a 6ª colocação, porém a 1ª.

É evidente que episódios assim me fazem sentir uma pontinha de desgosto com esse esporte. Sentimento, aliás, que creio fazer parte da imensa maioria dos fãs do automobilismo. Contudo, precisamos aprender a conviver com esse mal, pois os interesses de uma equipe sempre estarão acima dos valores de um piloto.

Tal pensamento pode soar estranho, afinal, a sensação que fica é a de que, pelo fato de um piloto comandar sozinho um carro de competição, o automobilismo seja uma modalidade individual. Ledo engano. O automobilismo é um esporte coletivo. A maior prova disso é que pilotos como Alain Prost, Ayrton Senna e Michael Schumacher, apesar de serem gênios do volante, só tiveram chances de vencer campeonatos quando profissionais que o cercavam foram capazes de muni-los com estratégias de corrida impecáveis e carros competitivos.

A manobra pró-Alonso em Hockenheim foi mais um episódio feio à história da Fórmula 1. Mas, nos coloquemos no lugar de um dirigente da Ferrari. É evidente que uma vitória de Massa seria muito comemorada. Contudo, a turma do time italiano ainda tem esperanças de vencer o Campeonato de Pilotos desse ano. E, até então, qual era o piloto com mais chance de brigar por essa conquista? Alonso, claro. O asturiano chegou à etapa alemã com 31 pontos de vantagem a Felipe.

Tudo bem. Agora imaginemos que a Ferrari não metesse o bedelho. Deixasse a disputa entre Massa e Alonso rolar. O que impediria que, após uma tentativa de ultrapassagem de Alonso, os ferraristas batessem? Nisso poderiam ser perdidos pontos preciosos na busca pelos mundiais de Pilotos e Construtores, iguais aos que a dupla da Red Bull dispensou no acidente ocorrido no GP da Turquia desse ano.

Ao contrário do que muitos imaginam, jogo de equipe é algo que acontece muito constantemente na Fórmula 1. No entanto, em alguns casos, a repercussão é estrondosa; noutros, é pequena. Tão pequena que fica até a impressão de que não ocorreu o dito-cujo. O próprio Felipe Massa é um exemplo disso. Ele já foi beneficiado e prejudicado por jogos da Ferrari que não repercutiram como o ocorrido nesse domingo - ou aqueles que envolveram Rubens Barrichello e Michael Schumacher, nos GPs da Áustria de 2001 e 2002.

Vale lembrar que em 2007, o então companheiro de Massa na Ferrari, Kimi Räikkönen, sagrou-se campeão da temporada porque o paulistano cedeu-lhe a vitória no Grande Prêmio do Brasil. No ano seguinte, contudo, o finlandês "retribuiu". Na penúltima etapa daquele campeonato, na China, o escandinavo, a pedido da Ferrari, deixou Massa assumir o 2º lugar, resultado que permitiu ao brasileiro chegar à prova decisiva, em Interlagos, 7 pontos atrás do líder do campeonato, Lewis Hamilton.

Mas se cabe aos cartolas pensarem no "coletivo" e promover manobras em prol de sua empresa, há uma peça que pode travar toda essa engrenagem: trata-se do piloto, digamos, a ser prejudicado. Ele pode bater o pé, afirmar "Daqui ninguém me tira" e seguir na frente do companheiro de time. Mas essa é uma decisão que pode queimar a carreira de qualquer profissional ao volante.

Não podemos condenar a Ferrari. Tampouco a Felipe.

E a vida segue.

Página inicial